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UMA VOZ A SER OUVIDA

O PHD. WAGNER BENTES PREFACIA LIVRO RECÉM LANÇADO PELO SELO
AMAZÔNIA JUDAICA
 
Quando fui surpreendido pelo convite dos irmãos Elmaleh (Salgado) para prefaciar um livro sobre o papel dos judeus na industrialização do Estado do Amazonas, imediatamente recorri a algumas obras sobre a economia local e seus desdobramentos. Mas quando tive em minhas mãos o texto do livro `História e Memória, judeus e industrialização no Amazonas`, e me debrucei sobre as trajetórias descritas, decidi imediatamente abandonar as fontes nas quais buscava embasamento, e me deixei levar por aqueles sinceros e emotivos relatos. E percebi então que esta nova iniciativa destes incansáveis irmãos teria, por si só, muito a nos dizer.
 
Iniciemos então pelo título principal do livro: História & Memória. Este título remete a uma discussão antiga, mas ainda muito recorrente no âmbito acadêmico, principalmente dentre os historiadores.
 
O que seriam as fontes históricas? Somente documentos e relatos oficiais? Ou os relatos de outros setores da sociedade, e suas documentações quase nunca citadas de forma oficializada não teriam também valor histórico? A construção histórica ou da memória de determinados setores da sociedade, nem sempre tão evidentes, não contribuiriam também para um entendimento mais acertado de determinado tempo histórico e sua contextualização?

Nesta discussão cabe também ressaltar que muitos grupos sociais tiveram sua história escrita por pesquisadores externos. Porém, com a revisão do fazer histórico e antropológico, muitas vezes os próprios nativos passaram a escrever suas próprias narrativas, acreditando que estas seriam mais legitimas, do que a maneira como estes grupos foram previamente, ou muitas vezes oficialmente representados.
 
Seguindo estes passos este trabalho minucioso não se ateve somente em contabilizar quais os produtos resultantes deste processo de industrialização. Não ficando restrito a quantos barris de petróleo foram produzidos, quantas arrobas de castanha ou de borracha foram exportadas. A história e/ou memória da implantação da indústria no Estado do Amazonas é contada de forma humana, dando voz e emoção, carne e osso à narrativa dos protagonistas judeus na construção deste processo.
 
Também através da construção desta narrativa podemos ter um longo apanhado da história do Estado do Amazonas, que quase sempre está relegada a um plano secundário no âmbito da historiografia nacional. Os discursos dos interlocutores remetem desde a chegada dos primeiros judeus marroquinos encarregados de comercializar os produtos manufaturados ingleses por toda bacia do rio Amazonas, descrevendo assim a fase extrativista que culminou no Ciclo da Borracha.
 
E as narrativas seguem descrevendo as adversidades dos primeiros imigrantes, os surtos de febre amarela que dizimavam vilas inteiras, a quebra do ciclo gomífero, o longo período de crise econômica, o êxodo de alguns em busca de melhores oportunidades, a permanência de outros que persistiram em suas atividades com produtos amazônicos.
 
E no correr da história e da memória destas famílias surgem os usos e costumes de uma Manaus que não existe mais. Toda essa riqueza de informações da vida cotidiana do inicio do século XX nós é regalada de brinde ao acompanharmos a trajetória deste processo de industrialização. As rádios, os clubes de recreação e bailes da tradicional família manauara, o carro alegórico da fábrica de cerveja que era o mais enfeitado do carnaval, ou ainda, lembranças sombrias como o surgimento do Movimento Integralista em Manaus, e a disseminação de violentas campanhas antissemitas, reflexo de um ressentimento profundo por conta do sucesso econômico e intelectual de alguns destes judeus que davam os primeiros passos para a implantação da indústria no Amazonas.
 
Como o caso de Isaac Sabbá, um homem descrito como de estatura pequena, mas de um empreendedorismo de longo alcance. Que por conta de sua desenvoltura e diversidade na área dos negócios, que incluía desde a fabricação de pregos, preservativos para a Johnson & Johnson, e até mesmo a criação de uma usina de petróleo e gás liquefeito, amealhava a antipatia de muitos, mas também fora reconhecido internacionalmente pelo seu empreendedorismo como o Barão de Mauá do Amazonas.

Ou ainda, Samuel Benchimol que venceu o jornalista José Lindoso em uma acirrada disputa pela Cátedra de Economia Política da Universidade de Direito do Amazonas. Restando somente ao oponente apoiar-se no antissemitismo e nas ideias integralistas, para desqualificar Benchimol, já que não conseguira superá-lo intelectualmente.
 
Estes são alguns exemplos muito ilustrativos de duas personalidades judaicas que não somente deram os primeiros passos para a industrialização do Estado do Amazonas, mas souberam principalmente compreender o universo amazônico e suas potencialidades, assim como, conectar a Amazônia com outros mercados, a pesar da falta de estrutura e das longas distâncias.
 
O livro se encerra na década de setenta do século passado, descrevendo a implantação da Zona Franca de Manaus, no intuito de gerar novas oportunidades e tentar consolidar um parque industrial na região.
 
No entanto, o livro não termina dessa forma, somente descrevendo a saga de sucesso de grupos comerciais judaicos na implantação da indústria no Estado do Amazonas.
 
O último depoimento contido no livro traz uma análise lúcida, que foge aos conteúdos apologéticos e celebrativos que muitas vezes recheiam estas publicações. Ressaltando primeiramente que a industrialização do Estado do Amazonas é realmente pequena se comparada a outros estados brasileiros, e que embora a história do comércio e da indústria amazonense se misture a história e a memória de muitas famílias judaicas, os judeus não foram os únicos participantes deste processo, que também foi protagonizado por outros grupos étnicos.
 
Ressaltando ainda, uma certa preocupação nos rumos que a industrialização irá tomar futuramente no Amazonas, para que o Estado não permaneça como um grande parque de montagem que pode a qualquer momento tornar-se obsoleto.
 
Portanto senhores leitores, recomendo a todos vocês que se deleitem com este pequeno livro, que nos traz um conteúdo diverso e Para os que já conhecem ou fizeram parte desta história, fica então o legado da memória. Para os que ainda não conhecem este lado tão particular da história do Brasil, permitam então que estas memórias convertam-se também em fatos históricos.
 
Tenham todos, uma excelente leitura.
 
Wagner Bentes Lins

Antropólogo. Autor da tese de doutorado pela USP, “A mão e a luva”: judeus marroquinos em Israel e na Amazônia; similaridades e diferenças na construção das identidades étnicas.
Um Pouco Sobre Onde Tudo Começou - Parte 2
A Terra de Canaan e o Período dos Patriarcas
 
Para que possamos entender melhor o período denominado na História dos Judeus de o Período dos Patriarcas, e são estes, Avraham e Sarah, Isaac e Rebeca e finalmente Jacob e suas duas esposas Rachel e Léa, temos que inicialmente conhecer melhor os povos que aqui viviam, seus costumes e suas crenças.

A cerca de 4000 anos atrás, a região que seria então prometida a Avraham, o primeiro monoteísta da história, era denominada Canaan.

Canaan é a antiga denominação da região correspondente à área do atual Estado de Israel inclusive as Colinas de Golan, da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, de parte da Jordânia (uma faixa na margem oriental do Rio Jordão), do Líbano e de parte da Síria (uma faixa junto ao Mar Mediterrâneo, na parte sul do litoral da Síria) (Números 34:1-15 e Deuteronômio 3:8).

Ainda de acordo com a Torá (Pentatêuco), o nome Canaan é alusivo a Cã (Ham) filho de Noé, ao qual se atribui a origem dos cananeus, conforme relato de Gênesis capítulo 10. Canaan foi o quarto filho de Cã, seria a duodécima geração depois de Adão: Adão > Sete > Enos > Quenaan > Malalel > Jarede > Enoque > Matusalém > Lameque > Noé > Cã > Canaan.

Após o Dilúvio, Cã teria se deparado com Noé embriagado, tendo visto a sua nudez em sua tenda e contado o fato a seus irmãos, em vez de cobrir o pai (Gênesis 9:22). Quando recobrou a consciência, Noé amaldiçoou Cã, Canaan, referindo-se a ele como o "servo dos servos" (Gênesis 9:25) "e disse: Maldito seja Canaan; seja servo dos servos de seus irmãos".

Segundo uma certa linha de interpretação, ao proferir tais palavras, Noé estaria profetizando que um dos descendentes de Sem, Abraão, iria herdar a terra dos cananeus.

Na Bíblia a lista dos povos que viviam na Terra Prometida par ao Povo Judeu é lembrada mais de 20 vezes e uma vez na Torá e outro no livro de Josué são lembrados os sete povos: "Quando o Eterno, teu Deus, te levar à terra à qual tu vais para herdá-la, e expulsaras muitas nações de diante de ti – o Hiteu, o Guirgasheu, o Emoreu, o Cananeu, o Periseu, o Hiveu e o Jebuseu, sete nações numerosas e mais fortes do que tu" (Deuteronômio – 7:1).

Em todo o trancurso histórico da Tanach (Bíblia – Pentatêuco, Profetas e Escritos), a região é denominada de "Terra de Canaan", em lembrança do pai dos sete povos que viviam nela. Entretanto, muitas vezes são lembradas pessoas ou cidades inteiras como pertencentes a um determinado povo. Por exemplo: os habitantes da cidade de Hevron são denominados de filhos de Het e os habitantes de Shechem (Nabulos) são conhecidos como pertencentes ao povo Hiveu.

Além desses sete povos descendentes de Canaan, viviam na Terra Prometida também, outros povos como os Filisteus que são mencionados várias vezes na Tanach e no livro Deuteronômio diz que eles não são originários da região mas que chegaram mais tarde. E na sequência são citados povos mais recentes descendentes de Avraham Avinu (o Patriarca) como os Ismaelitas e os Amalequitas.

Em que acreditavam os Cananeus?

Descobertas arqueológicas no local da antiga cidade de Ugarit, hoje na região costeira do Norte da Síria, país esse em guerra cívil a mais de quatro anos, mostraram centenas de placas de barros pertencentes a biblioteca do templo de Ras Sharma. Esses textos religiosos provam que a oposição contra a qual a tradição de Moisés teve que lutar não era uma simples aglomeração de pequenos cultos de fertilidade presididos por insignificantes deuses e deusas, mas, pelo contrário, um dos mais elaborados sistemas religiosos do mundo antigo. A religião dos cananeus já era bem difundida e já estava estabelecida na Palestina antes da conquista israelita. Era uma religião com ritos já bem elaborados e se identificava com os interesses de uma população agrícola. A religião dos cananeus era identificada com a natureza e tinha por objetivo ensinar os homens a cooperarem e a controlarem o ciclo das estações.

Entre as suas divindades a mais poderosas esta Baal, o "Senhor da Terra", que também era o Deus do tempo atmosférico. Baal é o herói de muitos mitos da terra de Canaã. Os mitos acompanhavam e explicavam os rituais.. Na sua maioria estes rituais diziam respeito à fertilidade da terra e à criação do mundo. Dava-se uma importância especial ao mito da morte e da ressurreição do deus. Baal, como doador da fertilidade, era representado como estando à morte quando as "últimas chuvas terminavam e o sol começava a queimar a terra, ressuscitando depois do outono. Essa ressurreição fazia com que as antigas chuvas voltassem e lançassem o ano agrícola em novo ciclo.

Além do mais, em Canaan se praticava uma religião e um culto rude e de certa forma promíscuo, muito longe daquilo que Avraham tinha pedido para si e seus seguidores. Ali na nova terra eram praticados em abundância os sacrifícios humanos e a prostituição religiosa feminina e masculina, abominados por todo o Israel.

Além de Baal destacavam-se também  a deusa Anat, irmã e consorte de Baal, especializada em sexo e matanças sangrentas; Mot, cujo o domínio são a morte e o deserto; Moloc, que se alegra com o sacrifício de crianças indefesas. Os rituais praticados pela população a estes deuses são cheios de simbolismos e atraiam a curiosidade dos desavisados. O povo de Israel varias vezes caiu nestas armadilhas e Iahweh por este motivos varias vezes através dos profetas contestou estas atitudes.
 
Quais são nossas fontes de pesquisa e comprovoção do que está escrito na Bíblia?

As fontes das quais retiramos todo o conhecimento possível desse período da história do Povo Judeu estão divididas em três tipos principais: A Bíblia, Documentos Epigráficos e as Pesquisas Arqueológicas.

Bíblia: Mesmo após todo o avanço da arqueologia e das descobertas epigráficas e a decifração destes, a Bíblia ainda é a fonte principal de informação geográfica e histórica de Erets Israel na época dos patriarcas e também na época dos israelitas depois da conquista da Terra de Canaan quando do retorno do Exílio do Egito. Na Bíblia são citadas 475 nomes de lugares em Erets Israel, e de muitos desses são citadas informações diversas sobre sua característica, localização e história.

Também na Bílbia encontramos: Descrições Historiográficas diversas como a lista dos reis canaaneus e as paradas do Povo Judeu no deserto. Listas territorias e administrativas como as descrições de fronteiras; listas de cidades.

Documentos Epigráficos: Esses documentos fazem o levantamento do pano de fundo de um modo geral do Oriente Antigo e isso ajuda a entender também e aprofundar nossos conhecimentos da história de Erets Israel. É possível encontrar desses documentos sua ligação direta com as fontes bíblicas. Essas fontes vem completar nosso conhecimento topográfico e histórico sobre Erets Israel em diferentes épocas.

Estamos falando de fontes epigráficas egípcias, mesopotâmicas e também da própria Erets Israel.

Pesquisas Arqueológicas: A Arqueologia é hoje uma fonte fundamental de toda a pesquisa historiográfica da Terra de Israel. O estudo arqueológico na região aprendeu a dar valor ao até mesmo ao menos de todos os achados da vida material e cultural da civilização antiga. E quando junta estes achados a arqueologia consegue completar inúmeras vezes, nosso conhecimento sobre a vida nos vilarejos e cidades estados e nos dar uma base do real do seu dia a dia. As vezes os achados arqueológicos são a principal fonte de conhecimento que temos em nossas mãos quando não a única.

Continuaremos no próximo número.
 
Por: David Salgado - seu Guia de Turismo em Israel
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