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SOBRE MITOS COINCIDÊNCIAS E HOMÔNIMOS:
Trabalhando com carinho de artesão o mosaico familiar.

 
“Não! Se surgir alguém com o sobrenome Salgado no Brasil que não seja parente nosso, descendente de seus avós Sime e Lázaro Salgado, certamente, ele não é judeu, muito menos de origem marroquina. Os únicos Salgado judeus de origem marroquina que existem no nosso país, somo nós”
 
Era meu tio Rubem Salgado Z”L, irmão mais velho de meu pai, fazendo uma afirmação categórica, numa das inúmeras entrevistas que lhe fiz, para coleta de depoimentos, dados, documentação e imagens, nos anos finais de sua vida, a partir dos anos 90, quando estudei minha pós graduação em História na Universidade Hebraica de Jerusalém, e estabeleci, desde então, como o meu objeto central de estudos, a comunidade judaica marroquina da Amazônia, da qual somos membros cativos, e passei a praticar um verdadeiro vício, que eu e meu irmão David, possuímos em comum: o estudo da genealogia e da memória das famílias daquela comunidade, em especial a nossa.

Boa parte do acervo familiar que possuímos, vem destes encontros com tio Rubem, os meus e os de David. Por anos a fio, tomamos aquela afirmação como um dogma, um verdadeiro mito da nossa história familiar. Mas aprendi na boa escola acadêmica de Monte Scopus, que um pouco de curiosidade e dúvida que seja, faz bem a qualquer pesquisador honesto.

Lendo livros como, “O queijo e os vermes”, “Os andarilhos do bem”, “Mitos, emblemas e sinais”, passei a acreditar um pouco mais, como Carlo Guinsburg, que a boa construção da história está nos detalhes.  E um pouco como aquele meu mestre, passei a através de detalhes isolados, desconstruir aquele mito familiar.

Me auxiliou nesta tarefa, a descoberta feliz, de um homônimo meu!

A primeira vez que me deparei com “ele”, foi quase que por acaso. Eu havia esquecido por um tempo, aquela questão dos únicos Salgado judeus do Marrocos no Brasil, quando passando um pente fino no arquivo da correspondência do jornal A Columna, de David José Pérez, no Arquivo da História do Povo Judeu, no campus de Guivat Ram, me deparei com uma carta, onde um assinante do jornal de nome. Simão L. de Barros, indicava a Pérez, para ser seu correspondente na região do Tapajós, a um sócio da
empresa Nahon & Cia. de Belém, o Sr. Elias Salgado.
 

Vocês certamente estão tentando imaginar minha surpresa, certo? Bem ela foi se tornando rotina ao longo do tempo, já que aquele “encontro” não foi o único...

Tempos depois, pesquisando sobre a genealogia dos Elmaleh, novamente me deparei com “ele”.quando lia “Genealogia hebraica: Portugal e Gibraltar, sec. XVII a XX” de José Maria Abecassis. Lá estava o meu homônimo. O verbete de seu pai, José Elmaleh,está lá bem abaixo do verbete do meu avô Eliezer Elmaleh. Nele Elias Salgado, consta como filho de José Elmaleh, que nasceu em Tanger, em 1865 e que teria se naturalizado brasileiro e mudado seu sobrenome de Elmaleh para Salgado.

Isto mesmo! A coincidência era múltipla: além de Salgado, de meu homônimo, “ele” era também um Elmaleh como nós. Tudo isso sem ser nosso parente, sem ser filho de Sime e Eliezer Elmaleh. Estava no chão o grande mito de nossa família. Não éramos os únicos Salgado judeus de origem marroquina no Brasil.

Mais tarde, ainda consegui conhecer o destino final de meu homônimo. Lendo “Sepulturas israelitas no Pará” de Egon e Frida Wolff, descobri que ele está enterrado no Cemitério Israelita de Soledad, em Belém.

Como podemos ver, ao menos duas grandes conclusões podem ser tiradas, por hora: mitos são para ser derrubados, sempre que a causa seja boa. E muitas vezes, são pequenos detalhes, como já vimos, que podem determinar a sua queda em prol da melhor escrita da história.

Elias Salgado
Um pouco sobre onde tudo começou
 
"E o Eterno disse para Avraham, depois que Lot se separou dele: alça agora teus olhos e olha desde o lugar onde tu estás, para o norte e para o sul, oriente e ocidente; porque toda a terra que te vês, a ti darei e à tua descendência, para sempre". (Gênesis 13, 14-15)
 
Os quatro ventos dos céus e seus nomes – Do Norte (Tsafona ou Smola) as Montanhas do Líbano repletas de neve durante o inverno. Do Sul (Darom ou Negev ou ainda Iamin) as terras do Negev (Deserto) áridas e secas. Do Leste, Oriente (Kedem) o deserto largo e longo. E do Oeste, Ocidente (Achor, Iam) o grande Mar.

Estes são as fronteiras naturais da Terra de Israel ou em hebraico denominada Erets Israel. Nestas fronteiras aconteceram as marcantes histórias e passagens do Povo de Israel desde a época dos Patriarcas e até a destruição do Primeiro Templo. Para compreender melhor e de maneira correta todo esse espaço geográfico, precisamos nos aprofundar em sua paisagem, seus caminhos, suas cidades antigas e os países ao seu redor.

Não temos em nossas mãos hoje em dia, um mapa antigo de Erets Israel da época da Bíblia (Tekufat ha-Mikrá). Caso tivéssemos, veríamos que este mapa estaria direcionado para o Oriente,
 
pois no Tanach (Bíblia) Oriente quer dizer "Kadima" ou "Kedem" que significa "adiante" ou "para frente". "Achor" ou Acharon" quer dizer "para trás" ou "último" e refere-se ao Ocidente. "Iamin" que significa "direita" e o lado Sul e finalmente "Shmol", "esquerda", nos mostra o Norte.
 
Um dos mapas mais antigos da Terra Prometida que se tem conhecimento é o Mapa de Madaba. Na realidade é um mosaico no piso de uma Igreja na cidade de Madaba na Jordánia de hoje localizada além do rio Yarden (Jordão). Este mapa/mosaico é datado do fim do século VI ou início do século VII da era atual, época dos Bizantinos. O que se vê é uma explanação geográfica detalhada de todo o território geográfico da Terra Prometida e regiões adjacentes. O importante frisar aqui é que o mosaico está direcionado para o Oriente, para frente – Kedem. Este mapa foi elaborado pelo menos mil anos depois da destruição do Primeiro Templo em 586 a.e.a.
 
O fator geográfico predominante na História da Terra de Israel é o seu lugar quase na ponta sudoeste dos países existentes no denominado Oriente Médio. Estes países estão assentados e formam uma espécie de Arco – Keshet em hebraico, que vem desde o Golfo Pérsico até a Península do Sinai no Ocidente nos dias de hoje. Todo esse terrítório é denominado e conhecido como – O Crescente Fértil.

O Crescente Fértil é uma faixa não muito grande de terra fértil, e outros povos viviam lá, povos que ainda eram nômades, como os criadores de animais. É razoável imaginar que os agricultores, com o passar do tempo, precisavam de mais terra para plantar, pois eles estavam livres do ciclo natural de provisão de comida, e sua população começou a crescer aceleradamente. E também é razoável imaginar que eles não podiam deixar os outros povos nômades entrarem nas suas terras e comerem o fruto do seu trabalho duro. Não é errado dizer que a vontade de expansão territorial de muitos povos começou com o desenvolvimento da agricultura.
Se partirmos do Golfo Pérsico e traçarmos uma meia-lua, passando pelas nascentes dos rios Tigre e Eufrates, colocando a outra ponta na foz do rio Nilo, no Egito, teremos uma região bastante fértil, onde se desenrolaram os marcantes acontecimentos narrados na Bíblia.
 
O Crescente fértil fica portanto entre a Mesopotâmia e o Egito dos tempos antigos.

A Terra de Israel é um pequeno e estreito território na ponta ocidental do arco Crescente Fértil, porém ela tinha uma função geopolítica muito importante por ser a ponte de ligação entre os países do arco e o Egito, a terra do Nilo.

Esta faixa de terra é regada por importantes rios, que condicionavam a vida do oriental antigo. Foram os rios que determinaram o estabelecimento da agricultura, da sedentarização e das rotas comerciais por onde passavam as caravanas que iam desde a Mesopotâmia até o Egito ou a Arábia. Esses rios eram muito bem utilizados pelos mesopotâmicos na época das cheias, pois eles utilizavam a água para a agricultura, irrigar a terra e evitar os períodos de fome tão longos naquela época.

Portanto, os rios eram a princípal força natural que ligava essas civilizações, serviam como veias de transporte fáceis e baratos e irrigavam suas terras de plantio. Tudo isso só poderia ser possível graças a uma organização governamental que pudesse impor ordem, paz e segurança, além de constituir forças tarefas com o objetivo de construir barragens e cavar canais para usufluírem das águas dos rios.

A partir desse momento, começaram a surgir os primeiros grandes impérios que se tem conhecimento, como os Sumérios, os Acádes, os Mitanios, os Hititos, os Arameus. Todos estes, um após o outro consquistaram a parte mais oriental do Crescente Fértil onde era a Mesopotâmia. Por outro lado, o Egito era uma civilização totalmente fechada e unida durante seu desenvolvimento, e o que mudava em seu território eram as dinastias faraônicas.

O comércio entre o Império dos Faraos do Egito e os impérios orientais do Crescente Fértil se faziam obrigatoriamente passando pelo estreito pedaço de terra chamada então Terra Canaan e os habitantes dessa territórios eram chamados os Canaaneus ou Canaanitas. Exatamente esta característica de terra passagem, já que servia de passagem entre os dois lados do Crescente Fértil, é que deu a Erets Israel o destino histórico no qual dezenas de nações e civilizações que por alí passavam a conquistavam e deixavam um pouco de sua cultura, seus costumes e tradições.

Erets Israel é habitada continuamente desde a pré–história. Terra de Israel serviu como um dos principais caminhos de ligação para o homem da pré-história mover-se da África para os outros continentes do planeta terra. O início do uso e controle do fogo, os costumes de como enterrar os mortos e o início do estabelecimento de assentamentos permanentes, todos estas passagens da história da humanidade tem registro e comprovação arqueológica das mais antigas do mundo em Erets Israel. Além disso, nesta região temos os primeiros registros da agricultura e do estabelecimento das primeiras cidades, como a cidade de Jericó por exemplo. No início, o tamanho das cidades foi estabelecido em algumas dezenas de hectares, mas com o passar do tempo, essas cidades evoluíram, e além de expandirem territorialmente, estabeleceram relações comerciais com parte do Crescente Fértil, como o Egipto e outras nações.
 
Continuaremos no próximo número.
 
Por: David Salgado - seu Guia de Turismo em Israel
www.facebook.com/guiaemisrael
salgado5772@gmail.com
 
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