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Neste número 24, um convite especial, sorteio de livros e o dia em que o Acre se fez brasileiro. Ainda: a aula de Sergio Buarque aos militares
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Prezados leitores,

A noite de autógrafos carioca de
Tenentes, A Guerra Civil Brasileira, ocorrerá na próxima segunda-feira, dia 15, na Livraria Travessa do Shopping Leblon, às 19h. Quem estiver pelo Rio e puder... Vou adorar conhecê-los.

Me utilizando do Sorteador, selecionei dois de vocês como vencedores de exemplares autografados do livro:
Wagner Ridolphi e Marise Chamani. As regras são muito simples: basta que vocês me enviem uma mensagem pelo historia@pedrodoria.com.br com o endereço e despacharei os livros.

Quem não estiver no Rio pode adquir exemplares autografados em minha loja.

Muito obrigado pela leitura =)

— Pedro.

E o Brasil comprou o Acre

No sábado último, completou 114 anos a Revolução Acreana. Falamos muito pouco deste 6 de agosto cá pelo resto do país. Mas, no Acre, é celebrado como data cívica. Nesse dia, em 1902, um grupo de 33 homens liderados pelo gaúcho José Plácido de Castro tomou o casebre de governo em Xapuri e assumiu o comando da terra que ainda fazia parte da Bolívia. Para somar insulto à injúria, 6 de agosto é o dia nacional boliviano. Esta é uma história com duas narrativas muito fortes. Numa, a Bolívia é vítima do imperialismo brasileiro. Na outra, os homens que desbravavam aquela terra perdida no meio da mata insurgiram-se contra a exploração pelo governo local e contra o imperialismo ianque. Duas narrativas, ambas incorretas.
 
O Acre, assim como boa parte da selva amazônica, era inexplorado em meados do século 19. Lá viviam índios, por volta de 150.000, divididos em 50 povos distintos. (No estado, aliás, ainda vivem povos isolados, sem contato com nossa civilização.) Mas aí aconteceu a borracha.
 
A seringueira é uma árvore daquela floresta e só de lá. A borracha natural, que vem de sua seiva, já era conhecida e comercializada, em pequenas quantidades, para apagar escritos a lápis. Mas, em 1839, o americano Charles Goodyear desenvolveu uma técnica que permitia, através do uso de calor e pressão e adição de enxofre, tornar a borracha muito mais resistente. Mantinha sua maleabilidade, mas não se desfazia à toa. Vulcanização. Essa borracha vulcanizada tornou-se, rapidamente, útil na confecção de máquinas para as indústrias que surgiam. E, com a popularidade do automóvel, o produto explodiu. Borracha fazia excelentes pneus. (Um especial em vídeo do History Channel sobre o processo: 2m50s.)
 
O que aquela região do Acre tinha como nenhuma outra era uma imensa plantação natural e inexplorada de seringueiras. Em finais do século 19, ondas e mais ondas de migrantes, principalmente nordestinos pobres, fizeram a perigosa travessia dos rios amazonenses para aquela região da Bolívia. Foi como uma corrida do ouro.
 
No primeiro momento, nem o governo brasileiro, nem o boliviano, estavam interessados. A inciativa de entregar-se ao trabalho nos seringais foi de homens comuns em busca de fortuna. Mas o negócio cresceu, cresceu rápido, e fortunas foram feitas. Terras foram compradas, principalmente por brasileiros.
 
O governo boliviano saíra, em finais da década de 1880, de uma guerra envolvendo Chile e Peru que lhe custou um imenso naco do território, incluindo 158.000 km2 de litoral. Vivia uma crise econômica com a decadência da mineração de prata, que lhe sustentava. E, agora, não tinha mais porto para exportação. Um momento de fragilidade institucional. É quando, numa região pouco explorada de seu território, brasileiros começavam a fazer dinheiro. Brasileiros com, nas mãos, títulos de propriedade. O conflito foi inevitável.
 
O primeiro estopim de revolta ocorreu em 2 de janeiro de 1899 quando o governo boliviano instalou, em Porto Acre, uma alfândega. Pretendia, como é razoável, coletar impostos. Os proprietários de terra brasileiros revoltaram-se e expulsaram os funcionários aduaneiros.

Enquanto isso, na jovem república brasileira, conviviam dois tipos de poder. O nacional e o regional. No Rio de Janeiro, o presidente da República dava as diretrizes do país com o apoio dos chefes locais. Dos coronéis. Em troca, ele não se metia na política regional que, muitas vezes, era resolvida a bala. O presidente Manuel de Campos Sales não queria confusão com a vizinha Bolívia. Mas o governador amazonense José Ramalho Júnior viu, no Acre, uma imensa oportunidade de fazer dinheiro. Assim, mandou uma expedição liderada pelo espanhol Luiz Gálvez, que lá chegando declarou a independência da República do Acre. Não durou um ano. A Marinha brasileira interferiu, prendendo Gálvez e retornando as terras para seus donos de fato.
 
Mas a revolta de brasileiros contra os impostos bolivianos não terminou. Piorou. Ainda mais quando a Bolívia cedeu aos Estados Unidos a exploração da borracha local, formando o Bolivian Syndicate of New York City.
 
Há um imenso risco de interpretar a história pelos olhos de hoje. Os EUA não eram, ainda, a força dominante mundial que se tornariam após a Primeira Guerra. E a Guerra Hispano-Americana, que terminou com a anexação de Porto Rico iniciando a política de intervenções agressivas na América Latina, havia sido apenas um ano antes. O incentivo, pelos americanos, da guerra civil na Colômbia que terminou com a independência do Panamá, ainda estava para acontecer. Havia razões para se preocupar com o envolvimento dos EUA, mas a ameaça não intimidava. Com a formação do Syndicate, o Brasil retrucou fechando o caminho pelos rios, o que inviabilizava não só o transporte da borracha como também a exportação pelo Atlântico de produtos bolivianos.
 
É neste cenário que, numa aventura, Plácido de Castro fundou a Segunda República do Acre naquele 6 de agosto de 1902.
 
Certa vez, argumentando que tinha o direito de encampar refinarias da Petrobras em território boliviano, o presidente Evo Morales afirmou que o Brasil tomara o Acre em troca de um cavalo. Não é verdade. Já era presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves quando o chanceler brasileiro, Barão do Rio Branco, convocou diplomatas bolivianos para uma conversa. O governo brasileiro não havia tomado qualquer atitude para ficar com a região. O governo amazonense, sim. O brasileiro, sutil diferença, não. Mas a tensão regional não ia se dissipar. Brasileiros eram donos daquelas terras, não podiam ser expulsos. E Rio Branco não via com bons olhos a presença americana ali tão próximo à fronteira. Propôs, portanto, a aquisição do Acre.
 
O Acre custou ao Brasil £ 2 milhões, o equivalente em dinheiro atual a £ 220 milhões, ou US$ 287 milhões. Não se fazia cálculo de PIB no início do século 20, mas aproximações são possíveis. O dinheiro pago pelo Brasil no Tratado de Petrópolis se aproximava de duas vezes o PIB boliviano em 1900. Foi dada a Bolívia, também, uma pequena parte do Mato Grosso, e o Brasil permitiu ao país estabelecer alfândegas em Belém, Manaus e Corumbá, além de se comprometer com a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, para facilitar o acesso de produtos bolivianos ao Atlântico.
 
O Acre foi comprado. Terminou se mostrando bom negócio para o Brasil. Mas não foi mau negócio para a Bolívia, cuja economia necessitava urgentemente de uma rota de exportação. O Brasil não agiu como Chile e Peru alguns anos antes.

As verdadeiras vítimas


As vítimas reais da Revolução Acreana foram outras. Vivem hoje, no estado, 14.451 índios. Menos de 10% da população dali antes da borracha vulcanizada.

Convite reforçado =)

Curtas


O dia em que Sérgio Buarque de Hollanda deu uma aula aos militares.

Uma homenagem a André Franco Montoro, que faria 100 anos em julho. Por Fernando Henrique Cardoso.

Coleção Uniafro, sobre história afro-brasileira e indígena, será lançada na Bahia. Serão 22 livros.

Anita Garibaldi, a primeira mulher reconhecida como heroína brasileira.

A história da arte brasileira em exposição, no Rio.

Filmes e seriados para estudar história.

Lisboa vai preservar suas ‘lojas com história’.

Enfim


A genealogia do Acre não tem nada de apoteótico. A narrativa epopeica que inventou os primeiros acrianos como heróis desconsidera todo o processo de formação histórica da própria sociedade acreana. Genocídio indígena, invasão de terras, confrontos armados, tráfico de prostitutas, regime econômico baseado na semiescravidão, sonegação fiscal, autoritarismo político, corrupção dos primeiros prefeitos, e tantas outras práticas das quais já seriam suficientes para confirmar que qualquer ufanismo diante desse passado é ideologicamente marcado.

Do professor Eduardo Carneiro, em entrevista sobre a festa do último sábado.
Pedro Doria é jornalista, autor de três livros de história. Tenentes conta os dramáticos acontecimentos dos anos 1920 que terminaram no golpe de 1964. 1565 narra o nascimento de SP e do Rio. 1789, a verdade por trás da Inconfidência Mineira.
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