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Nesta edição 28: Os doze estudantes que fizeram um pacto que culminou com a independência do Brasil. Mais: José Bonifácio cientista.
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O Pacto dos Doze

Poucas histórias, dentre as tantas nos arredores da independência do Brasil, me fascinam tanto quanto a mais misteriosa de todas. É a do Pacto dos Doze.
 
Em meados dos anos 1780, no campus da Universidade de Coimbra, um grupo de estudantes brasileiros, todos com mais ou menos a mesma idade, prometeram-se a si mesmos que não descansariam sem ver o Brasil independente. Não sabemos o nome de todos. Mas eram, todos, filhos da altíssima elite da colônia. Só estes podiam estudar na melhor universidade do mundo português.
 
Faziam parte do grupo ao menos dois cariocas: José Joaquim da Maia e José Mariano Leal da Câmara. Maia morreu jovem de tuberculose. José Mariano, muitos anos depois, seria o médico de dom Pedro I. Havia, também, ao menos quatro mineiros. José Pereira Ribeiro, Diogo de Vasconcelos, Francisco de Melo Franco e José Álvares Maciel. Pereira foi um advogado rico de Mariana. Tanto de Diogo quanto de Melo Franco descendem incontáveis políticos, intelectuais e jornalistas brasileiros.
 
Maia e Maciel trabalharam concretamente pela independência. Enquanto fazia uma pós-graduação em medicina na França, Maia se encontrou com o embaixador americano no país para pedir ajuda. A independência dos EUA era muito recente, o país estava se estruturando e ainda não havia se decidido pelo regime presidencialista. George Washington só assumiria a presidência alguns anos depois. O embaixador com quem Maia conversou não era qualquer um. Thomas Jefferson, o homem que escreveu a Declaração de Independência e o terceiro presidente.
 
Maciel, por sua vez, teve uma vida duríssima. Ao retornar ao Brasil, trazia consigo uma pequena compilação das leis que constituíam os EUA. É bem provável que tivesse sido presente de Jefferson para Maia, já que Maciel estivera ao lado do amigo quando ele morreu muito doente. Este livro do mineiro estava com Tiradentes quando foi preso. Maciel morreu empobrecido, no exílio africano por ter sido um dos inconfidentes.
 
Estes são cinco de doze que fizeram o Pacto. Não há nenhum registro histórico de quem fossem os outros. Mas não eram muitos os estudantes brasileiros na Coimbra daqueles anos, então a lista de suspeitos é pequena. E um deles, apenas um deles, escreveu mais ou menos no mesmo tempo um poema chamado O Monstro Horrendo do Despotismo. Eram uns versos parnasianos de encanto com a independência americana. O nome deste estudante, um paulista de Santos: José Bonifácio de Andrada e Silva.

José Bonifácio tinha a mesma idade, assistia as mesmas aulas, tinha as mesmas preocupações, é absurdo não imaginar que ele fizesse parte do Pacto. Mas não há registro.
 
Esta é a geração que fez a independência do Brasil. Fracassou na Inconfidência, mas acabou conseguindo numa improvável aliança com a coroa portuguesa.
 
Aquele era um tempo muito diferente embora, de certa forma, tenha lá sua proximidade com o atual. Hoje são tantas as universidades que, em geral, estudantes assistem aulas perto de casa, ainda morando com os pais. Durante os séculos 18, 19 e boa parte do 20, não era assim. Estudantes, mesmo os ricos, viviam em repúblicas. Casas alugadas, hospedarias e coisas do tipo. Os brasileiros não pensavam em si como brasileiros. Portugal era um império de muitas províncias. Então havia os mineiros, os paulistas, os portuenses, os lisboetas. Portugueses todos. A ideia que aqueles Doze faziam de ‘Brasil’ era um pouco como a que os norte-americanos tinham de seu novo país. Eram as Treze Colônias que formavam uma aliança, não ainda os Estados Unidos.
 
Nessas repúblicas, surgiam a toda hora sociedades, algumas delas secretas. Aquele era um mundo cheio de ideias novas, ideias avidamente discutidas e debatidas nos campi de várias universidades, que, no entanto, ainda conviviam com o velho despotismo. Algumas dessas ideias liberais constituíam crimes perante o regime. Estas sociedades iam de instituições nascidas na Inglaterra e Escócia, como a Maçonaria, passavam pela Burschenschaft alemã que aqui no Brasil foi virar a Bucha Paulista, mas incluíam também grupos legais como a Academia Real das Ciências de Lisboa. Até esta era vista com desconfiança. O que a salvava era o fato de seu presidente ser tio de dona Maria I, a rainha. Mas qualquer discussão a respeito de ‘ordem natural’, ciência, qualquer debate livre e público sobre ideias era percebido como ameaça.
 
Era este espírito em combustão, um mundo cheio de ideias novas e o incrível esforço de controlar o fluxo destas ideias, que explodiu naquele período. É o que está por trás das Revoluções Americana e Francesa, também da Inconfidência Mineira. É neste espírito que José Bonifácio se formou.
 
Nada garante que ele fizesse parte do Pacto dos Doze. Mas suas ideias indicam que estava.
 
Tiradentes foi enforcado em 21 de abril de 1792. Exatos trinta anos antes de o Brasil se tornar independente num 7 de setembro.

José Bonifácio no Central Park.

Os dois cientistas


Tanto José Bonifácio quanto José Álvares Maciel eram colegas mineralogistas. O curso de Filosofia Natural de Coimbra era muito recente mas fundamental. Não à toa. Portugal vivia das minas brasileiras e, com o início da Era Industrial, o valor do minério passou a ir muito além do ouro. Ambos foram alunos do italiano Domenico Vandelli, um maçon que deixou lembranças vívidas em todos seus estudantes.

Naquele tempo, a universidade funcionava um pouco como um ciclo básico e, em geral, a formação de fato vinha após uma especialização. Bonifácio seguiu para a França, onde estudou com o químico Antoine François, conde de Foucroy. Era um dos colaboradores de Lavoisier. De lá, fez uma longa excursão pelos países nórdicos, inspecionando minas. Na Suécia, na iha de Utô, deparou-se com um mineral nunca antes documentado que batizou Petalita em homenagem ao filho do príncipe regente, dom João VI.

O principal componente da petalita é o elemento lítio. Bonifácio descobriu um dos elementos da Tabela Periódica. Não é pouco.

Maciel, por sua vez, seguiu para a Inglaterra e fez um longo estágio em Birmingham. Enquanto seu companheiro de curso e xará metia-se numa carreira científica, ele buscava algo mais prático: engenharia. Não podia escolher lugar melhor. Em meados dos 1600, ali naquela cidade, se formou uma aliança entre comerciantes que exploravam o serviço de fornos e forjas. Este exercício em metalurgia cada vez mais sofisticada levou à criação de máquinas e, a partir delas, indústrias. Ciente de quão rica eram as Minas Gerais em metais, o jovem engenheiro metalúrgico sonhava com uma revolução industrial mineira. Foi em Birmingham, afinal, que estava nascendo a revolução industrial inglesa.
É bastante bonito o cristal de Petalita.
Pedro Doria é jornalista, autor de três livros de história. Tenentes conta os dramáticos acontecimentos dos anos 1920 que terminaram no golpe de 1964. 1565 narra o nascimento de SP e do Rio. 1789, a verdade por trás da Inconfidência Mineira.
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